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ECOH na Imprensa

É com muita honra que publicizo uma entrevista com o contador de histórias burkinabé François Moïse Bamba. Recentemente, ele esteve no Brasil pela quarta vez, é ator natural do Burkina Faso (país no oeste da África) e reconhecido pelo mundo como “o ferreiro contador”. Em sua última temporada, entre 2019 e 2020, o artista passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pernambuco, fazendo, inclusive, uma imersão no Sertão do Pajeú e atividades na Região Metropolitana do Recife.

https://www.revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/ro-que-nos-divide-e-pouco-em-relacao-ao-que-nos-uner

Resumo:
Essa tese discorre sobre a disciplina eletiva e prática Narrativas na Rua, ministrada no curso técnico em Arte Dramática da Escola Técnica de Artes da Universidade Federal de Alagoas e no curso de Licenciatura em Teatro da mesma universidade. Na disciplina são apresentados princípios de contadores de histórias da África Ocidental, conhecidos como djeli ou djelimuso. Esses contadores fazem parte de uma casta, numa tradição oral secular que passa de geração a geração. Os primeiros e principais expoentes dos djeliw fazem parte da família Kouyaté. Esse estudo abarca discussões sobre oralidade feitas principalmente por uma parte da família Kouyaté proveniente do país chamado Burkina Faso e outros contadores de histórias encontrados no XVIII Festival Internacional de Contadores de Histórias Yeleen, promovido pela família supracitada na cidade de Bobo Diulasso. Este trabalho descreve a prática da tradição oral do djeli, suas funções e atribuições, analisa o discurso de alguns membros da família Kouyaté e do tradicionalista Amadou Hampatê Bâ, além de abordar um processo de intercâmbio realizado pelo autor em Burkina Faso, participando do festival Yeleen em 2014. A contação de histórias para esses “artesãos da palavra” acontecem preferencialmente em espaços abertos. São relacionadas práticas de Teatro de Rua no Brasil com enfoque na Rede Brasileira de Teatro de Rua (RBTR) e feito um panorama dessa modalidade teatral e suas possibilidades de inserção em universidades brasileiras, partindo do conceito de Arte Pública e experiência. O plano de ensino da disciplina, sua conjuntura,
cronograma, princípios e exercícios são esmiuçados a fim de se destacar a importância de práticas curriculares em espaços abertos e em diálogo com referenciais africanos de tradição oral. Na tradição oral estudada, parte-se da premissa que é preciso realizar um mergulho profundo em nosso referencial e repertório para poder entender com mais responsabilidade as narrativas de outras culturas. São expostas e colocadas em discussão a prática de sessões de contação de histórias na cidade de Maceió, com contos “alagoanos” e africanos, realizados como processo prático do doutoramento em pelo menos quatro logradouros públicos diferentes, refletindo sobre suas especificidades e contextos.

Havia um rei chamado Obatalá. Esse rei admirava há muito a inteligência e a perspicácia de um jovem chamado OrunmiláEle queria entregar para Orunmilá o segredo das pessoas, o segredo de todo o mundo.

Acontece que Orunmilá era muito jovem para uma missão tão importante, então Obatalá resolve testar Orunmilá. Ele pediu a Orunmilá que fizesse a melhor comida que ele pudesse comer.

Orunmilá foi até sua casa e lhe preparou língua de touro.

O rei comeu, se deliciou e perguntou: “Por que língua de touro é a melhor comida?”

Orunmilá respondeu: com a língua se consegue axé, com a língua se fortalece as amizadescom a língua se enaltece as grandes obras, com o uso da língua os grandes chegam à vitória.

Depois de um tempo o rei Obatalá resolveu testar de novo Orunmilá e pediu que ele fizesse a pior comida que pudesse ser feita.

Orunmilá foi até sua casa e preparou para o rei língua de touro. “E o rei perguntou, mas como a melhor comida pode ser a pior comida?”

Orunmilá respondeu, com a língua os homens se perdem e se vendem, com a língua são proferidas as calúnias, com a língua se destrói as reputações, com o uso da língua são cometidas as maiores vilezas do ser humano.

Obatalá surpreso resolve entregar então para Orunmilá os segredos que governam o mundo e a vida das pessoas. 

*Conto presente no livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.

*Imagem do blog setas para o infinito.

No livro Mitologia dos Orixás, Reginaldo Prandi traz 301 relatos que contam como são, o que fazem, o que querem e o que prometem os orixás.

"Um dia, em terras africanas dos povos iorubás, um mensageiro chamado Exu andava de aldeia em aldeia à procura de solução para terríveis problemas que na ocasião afligiam a todos, tanto os homens como os orixás. Conta o mito que Exu foi aconselhado a ouvir do povo todas as histórias que falassem dos dramas vividos pelos seres humanos, pelas próprias divindades, assim como por animais e outros seres que dividem a Terra com o homem. Histórias que falassem da ventura e do sofrimento, das lutas vencidas e perdidas, das glórias alcançadas e dos insucessos sofridos, das dificuldades na luta pela manutenção da saúde contra os ataques da doença e da morte. Todas as narrativas a respeito dos fatos do cotidiano, por menos importantes que pudessem parecer, tinham que ser devidamente consideradas. Exu deveria estar atento também aos relatos sobre as providências tomadas e as oferendas feitas aos deuses para se chegar a um final feliz em cada desafio enfrentado. Assim fez ele, reunindo 301 histórias, o que significa, de acordo com o sistema de enumeração dos antigos iorubás, que Exu juntou um número incontável de histórias. Realizada essa pacientíssima missão, o orixá mensageiro tinha diante de si todo o conhecimento necessário para o desvendamento dos mistérios sobre a origem e o governo do mundo dos homens e da natureza,, sobre o desenrolar do destino dos homens, mulheres e crianças e sobre os caminhos de cada um na luta cotidiana contra os infortúnios que a todo momento ameaçam cada um de nós, ou seja, a pobreza, a perda dos bens materiais e de posições sociais, a derrota em face do adversário traiçoeiro, a infertilidade, a doença, a morte."