Luciano Pontes: contar histórias é um ato de interação e colaboração
Luciano Pontes chegou à narração de histórias pela literatura. Primeiro escritor, depois contador de histórias, foi aproximando esses dois territórios até fazer da criação, da pesquisa e da oralidade partes de um mesmo trabalho. Foi nesse percurso que reconheceu uma herança familiar sua mãe Irene e a prima Dos Anjos lhe contavam histórias e trovas.
Natural de Orobó, no Agreste pernambucano, se criou entre Olinda e Recife é hoje está radicado em São Paulo, Luciano é escritor, ilustrador, ator, palhaço e contador de histórias. Integra a Associação Doutores da Alegria há 26 anos, onde vive o “Dr. Lui” e está como Coordenador de Formação. Fundou a Cia. Meias Palavras, dedicada à pesquisa e à criação a partir da oralidade, dos contos populares e das linguagens teatrais.

Na literatura para crianças e jovens, Luciano Pontes publicou, entre outros, Ouvindo as conchas do mar e Uma história sem pé nem cabeça, ambos ilustrados por André Neves; e Lua noite e dia, obra criada em parceria com Fábio Monteiro e André Neves. Em alguns de seus livros, assina também as ilustrações, como em Belizbel, Uma andorinha só e A Terra Ensacada: e outras histórias. É autor ainda de Em briga de irmãos quem dá opinião?, ilustrado por Roberto Weigand, e O carrossel do tempo, com ilustrações de Denise Nascimento.
Na trajetória de Luciano, texto e imagem, escrita e oralidade aparecem como diferentes caminhos de uma mesma pesquisa narrativa.
Na 15ª edição do ECOH – Encontro de Contadores de Histórias de Londrina, Luciano apresentou Histórias do Velho do Saco, espetáculo da Cia. Meias Palavras em que assina concepção, roteiro, direção, atuação e narração. Nesta conversa, fala sobre o encontro entre escrita e oralidade, a influência da palhaçaria em seu trabalho, a pesquisa que deu origem ao espetáculo e a capacidade das histórias de permanecer na vida das pessoas ao serem contadas e recontadas.

Você começou como escritor e depois se descobriu contador de histórias. Como esses dois caminhos se encontram no seu trabalho?
Luciano Pontes – Primeiro fui escritor e, depois, fui me descobrindo contador de histórias. Fui descobrindo essa figura e essa presença, muito nos cursos e nas conversas com os amigos, essa figura ancestral que é o narrador de histórias. Tive sorte de ter uma mãe contadora de Histórias e um prima que recitava versos rimados. Além do convívio com toda a expressão dos brinquedos populares do Nordeste, principalmente o mamulengo.
Fui tentando desenvolver, no meu trabalho na companhia como dramaturgo e roteirista a partir do que chamo de “contador-criador”.
Conto histórias autorais minhas e também histórias que recolho, pesquiso, transcrevo ou reconto do meu jeito, dando o meu toque. As histórias que recolho são recontadas a partir do meu modo de contar.
Por isso, trabalho nessa perspectiva de, ao mesmo tempo, criar os meus próprios roteiros e dar às histórias um tom muito particular e autoral.
Acho que, nesse sentido, tenho um trabalho tanto de criação oral — porque o contador de histórias lida com a oralidade e com a interação — quanto de escrita literária. Também trabalho com interação, autoria, recolha e pesquisa, mas dentro do campo da literatura e da palavra.
Tentei juntar, no trabalho de contador e na pesquisa da companhia, esse lugar do narrador: onde esse narrador está e quais histórias interessam a essa figura do narrador.
O que a experiência com a palhaçaria trouxe para a sua maneira de contar histórias?
Luciano Pontes – A experiência com a palhaçaria me trouxe mais pertencimento, espontaneidade e identidade. Trouxe a quebra, a transgressão e uma forma de lidar com as pessoas sem medo. Trouxe a maturidade de poder parar uma história, tecer outros caminhos de interação com as pessoas e, depois, voltar para a própria história.
Faço muito isso quando não estou num espaço mais espetacular, como um teatro com iluminação, porque trabalho com a narração artística. Mas, quando vou para uma escola, um orfanato ou um centro de convivência, quebro um pouco esse protocolo de distanciamento que o palco às vezes dá.
Crio uma relação com as pessoas e com a plateia para trazê-las mais para perto, porque acho que contar histórias é um ato de interação. Há também um ato de colaboração com as pessoas.
A palhaçaria me trouxe esse lugar de chegar, sentir e ler o espaço, conseguindo me relacionar com ele a partir do frescor daquele momento e da particularidade que aquela plateia também me dá.
Vou sentindo a plateia e percebendo o que ela está pedindo: se são histórias mais alegres, um jeito mais alegre, mais triste ou mais contemplativo. A partir daí, vou costurando o roteiro de histórias que componho para os espetáculos.

Em Histórias do Velho do Saco, você parte de uma figura que marcou o imaginário de muitas gerações pelo medo. O que interessou a você nessa personagem?
Luciano Pontes – Em O Velho do Saco, fui atrás do mito de uma configuração cristalizada pelo medo para reconfigurá-la. A figura central é o velho, mas eu foco na relação mãe e filha onde tudo se transforma em coragem e força.
É uma história de referência porque foi registrada por Câmara Cascudo. Eu a reconto com música e faço uma adaptação, porque ela é um registro histórico da presença portuguesa aqui.
É uma história muito associada ao medo, porque a velhice, de alguma forma, está associada a esse lugar do assombro, das pessoas que vão envelhecendo e viram bruxos e bruxas. Então, o Velho do Saco teve essa culpa de carregar o medo de muitas crianças.
É como se eu ressignificasse essa figura. Claro que conto a história do jeito que ouvi, mas a entremeio com músicas, com canções que inventei, o que dá um tom de muito mais empoderamento para a mãe, que é uma mulher e resolve um pouco essa história.
Acho que uma das coisas no Velho do Saco que mais chama a atenção é que ele surgiu quando eu estava fazendo uma especialização em literatura na UCS/RS. Tivemos uma matéria sobre o velho na literatura e foi a partir daí que me dei conta de que buscamos nomes diferentes para falar da velhice: boa idade, nova idade, terceira idade e coisas assim. Usamos outras palavras para designar o velho.
Fomos discutir muito essa presença do velho. Há muitas histórias que têm velhos e velhas. Foi a partir daí que fui recuperando um pouco essa figura.
Nesse simbolismo, o Velho do Saco carrega coisas. Para mim, são muito mais as histórias que eu carrego. Ele tem essa analogia: a de um velho que passa, que é andarilho, que percorre cidades e seu entorno.
Ele é uma figura mítica, lendária, porque as pessoas fizeram dele isso. Mas, na verdade, ele nem necessariamente era assim. Essa também é uma história inventada.

Depois da apresentação no ECOH, você falou sobre perceber as histórias pelo “termômetro da plateia”. O que esse encontro com o público mostrou a você?
Luciano Pontes – Foi um momento de celebração, de poder contar e recontar essas histórias. É muito bom também sentir, pela relação e conexão da presença e da palavra com a plateia, como essas histórias acontecem e chegam às pessoas.
Algumas histórias as pessoas conheciam, tinham versões diferentes. E isso é que é legal da história: ela consegue permanecer na vida das pessoas sendo recontada de maneiras diferentes.
